sábado, 29 de maio de 2010

Caso Ivan Rocha



Ivan Rocha desapareceu em 22 de abril de 1991 na cidade de Teixeira de Freitas, no extremo sul da Bahia, depois de ter prometido em seu programa “A voz de Ivan Rocha”, pela rádio Alvorada AM, entregar ao desembargador Mário Albiani, que visitaria a cidade no dia seguinte, um dossiê sobre o crime organizado com os nomes de policiais e de um influente deputado envolvidos num grupo de extermínio do extremo sul da Bahia. No município com cerca de 108 mil habitantes, a 828 quilômetros ao sul de Salvador, capital do Estado, Rocha é o símbolo de um passado ainda muito presente, que volta e meia reaparece na voz dos defensores dos direitos humanos em sua luta pelo fim da impunidade.

O inquérito teve, desde o início, uma série de empecilhos para que não fosse adiante. Em maio de 1991, o Procurador Geral da República, Aristides Junqueira, aceitou a denúncia de crime por omissão apresentada pela Federação Nacional de Jornalistas (Fenaj) contra o governador Antônio Carlos Magalhães por não dar andamento ao caso de Rocha.

Em julho de 1991, o delegado Jackson Silva entregou o relatório do inquérito qualificando o desaparecimento de Ivan Rocha como seqüestro e indiciando Salvador Rodrigues Brandão Filho, que trabalhava em uma rádio do deputado Temóteo Alves de Brito, e os policiais Antônio Carlos Ribeiro de Souza, Domingos Cardoso dos Santos, Adilson Dias Ramos e Joel Caetano Pereira. O Ministério Público considerou que havia provas somente para denunciar a participação de Souza, Brandão Filho e Dos Santos. Este último foi absolvido, enquanto que os dois primeiros foram condenados a cinco anos de prisão. Mas os juízes do Tribunal da Justiça da Bahia aceitaram depois a apelação e os absolveram. A alegação foi de que nunca se encontrou o corpo do jornalista e por isso o caso foi suspenso em 1994.

O juiz auxiliar Benedito Alves Coelho foi quem pronunciou a sentença acusando os suspeitos porque a juíza titular, Kátia Suely Dantas Carilo, tinha 5 mil processos pendentes. Coelho não tem dúvida da culpa dos acusados: “Julguei, condenei, tinha fartas provas nos autos”, confirmou. “Mas houve pressões, tentativas de conduzir o processo e de assustar o juiz – passei por maus momentos”, recordou.

O promotor Gilberto Ribeiro de Campos, da 1ª Promotoria de Justiça de Teixeira de Freitas desde outubro de 1996, reabriu o processo para fazer um relatório. “Esse processo seguiu todo o encaminhamento judiciário possível, mas no Tribunal de Justiça da Bahia o relator Ivan Brandão entendeu que não havia provas capazes de condenar os indivíduos condenados em primeira instância”, observou. “Crime de homicídio é material, é preciso encontrar o corpo”. Além disso, a principal testemunha voltou atrás no que havia dito durante o inquérito – num primeiro momento, disse que viu Salvador Rodrigues Brandão Filho, Antônio Carlos Ribeiro de Souza e outras duas pessoas que não conhecia saltarem de um veículo e pegarem Rocha, saindo no carro em alta velocidade. Depois, mudou seu depoimento. Disse que foi levada a Salvador contra sua vontade e acusou o delegado de lhe haver forçado a dar aquelas declarações.

Wilson Victor de Alcântara, advogado da Rede Sul Bahia, grupo ao qual pertencia a rádio em que Rocha trabalhava, acompanhou o processo com o promotor e concordou em pedir a impronúncia dos indiciados. “Como vou pedir a condenação de alguém sem provas?”, pergunta. “Até hoje não temos investigadores à altura para um crime daqueles. Para o caso ser reaberto, terá de ser feita uma investigação profunda – fora disso, é difícil”, disse Alcântara.

Mais de uma década depois, é quase impossível reconstituir o que sobrou da memória de familiares e amigos sobre os fatos da época. A mãe, Valdelira de Jesus, perturbada pela perda do filho que até então a ajudava a enfrentar a ainda precária situação econômica da família, confunde datas e sentimentos. Durante o período em que a pressão da imprensa e dos representantes de direitos humanos foi grande para que se chegasse à solução do caso, ela relatou ter sido vítima de um seqüestro.

Segundo o relato, numa noite dois homens foram até sua casa em um carro de polícia e a levaram sob o pretexto de que devia dar um depoimento na delegacia. Valdelira conta que foi de avião a Salvador e lá começaram a pressioná-la para dizer que um deputado teria dado dinheiro para Rocha sumir porque Rocha havia falado demais e o clima na cidade estava muito ruim para ele. Nervosa, lembra ter tido uma dor de cabeça muito forte (tem pressão alta), tomado um chá para se acalmar e dormido profundamente.

Os amigos e a filha descrevem que ela estava nesse estado de semi-consciência quando apareceu na TV Santa Cruz para falar contra o próprio filho – Valdelira não se lembra disso. Na tevê, foi entrevistada pelo fato de Ivan Rocha não ser o verdadeiro nome de seu filho, mas sim Valdeci de Jesus. Rocha seria, na realidade, o primo dele, de quem teria pegado emprestados o nome e os documentos. A história não foi confirmada pela família.

Os restos de Ivan Rocha

Uma carteira profissional de Ivan Rocha da Rádio Santos Dumont, pertencente à Associação de Cronistas Esportivos do Paraná, de 1986, e uma foto dele na Rádio-Jornal de Itabuna, do mesmo ano, foram as lembranças que restaram à família. Como os documentos são antigos, nos arquivos das entidades não foi possível encontrar alguma informação a mais sobre o radialista.
Como o jornalista assumiu o cargo de dirigente regional do Sindicato dos Jornalistas Profissionais da Bahia no Extremo Sul com o nome de Ivan Rocha, o presidente da Associação Bahiana de Imprensa, Agostinho Muniz, disse que o órgão decidiu que só entraria com um processo para averiguar a informação sobre a falsa identidade quando o radialista reaparecesse. A troca de nomes foi usada como pretexto para que Rocha passasse de vítima a culpado no decorrer das investigações, dificultando ainda mais o andamento do inquérito.

A mãe conta que ele tinha 33 anos quando desapareceu. Era o mais velho de 12 irmãos, dos quais dois morreram ainda pequenos e outros dois foram mortos pela polícia. Rocha ajudava a abastecer com arroz e feijão a despensa. Havia saído de casa com 18 anos para tentar a vida fora de Teixeira de Freitas. Passou pelo Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte. Voltou à Bahia quanto estava já com 30 anos e ajudou a montar a casa onde vivia a mãe e a irmã. Estava há somente um mês na Rádio Alvorada, em Teixeira de Freitas, quando desapareceu. “Eu não queria que ele fizesse o programa, era perigoso, mas ele disse que tinha nascido para fazer aquilo”, lembrou Valdelira.

Durante dois anos, Rocha teve um jornal próprio, A Notícia, que se mantinha graças ao contrato com a Prefeitura. E fazia oposição ao governo do grupo do ex-governador da Bahia e senador reeleito Antônio Carlos Magalhães (PFL). A mãe contou que ele foi candidato a vereador pelo Partido dos Trabalhadores (PT) na cidade de Itabuna (Bahia).

Segundo os amigos, Rocha não soltava por nada sua agenda de telefones. No dia em que desapareceu, a agenda sumiu junto. Ele saiu aquele dia da casa da mãe dizendo que ia se encontrar com a namorada, Rosária Monti, 34 anos. Quando Rocha desapareceu, Monti tentou em vão qualquer indício que levasse a ele. “Desapareceu tudo: agenda, documentos, carteira. Na casa onde ele morava não tinha nada”, relatou. Chegou a cogitar que ele tivesse sumido por conta própria. Logo engajou-se na luta para buscar o namorado.

Apesar de o relacionamento amoroso existir há um ano, Monti não sabia muito da vida pessoal de Rocha. Conheceu-o quando ele trabalhava no jornal e ela estava à frente de uma greve dos professores. “Era uma pessoa extremamente boa e queria continuar com o programa de denúncias na rádio”, descreveu Monti. “Ele tinha uma linha exagerada de dar as notícias para chamar atenção com a qual eu não concordava, mas nunca colocava nada no ar se não estivesse seguro”. O empenho em descobrir o que havia acontecido com Rocha rendeu uma perseguição política para Monti, que perdeu o emprego e se mudou de Teixeira de Freitas.
Caso chegou ao Ministério da Justiça

A última vez que Josephus Julins Maria Koopmans, conhecido como Padre José, foi entrevistado por Ivan Rocha, depois da entrevista ele deu um conselho ao radialista: “Ivan, Cuidado...”. Padre José acreditava que Rocha às vezes fazia denúncias sem ter provas. E o repórter respondeu: “É, às vezes eu aumento, sim”. Mas o padre reconheceu que “era um repórter corajoso, sem dúvida”. A região sempre foi pródiga em situações que exigiam coragem. Na época em que Rocha trabalhava no rádio, eram freqüentes as notícias sobre disputas de terra, violência policial e perseguição política com ameaças à vida. Hoje, os problemas estão ligados principalmente ao tráfico de drogas.

Nos últimos 10 anos, Padre José encabeçou a luta pelos direitos humanos no Sul da Bahia, denunciando os casos de tortura e mortes. “As pessoas que moravam perto da delegacia e ouviam os gritos não tinham coragem de depor”, relatou. Por conta de sua atuação política, o padre recebeu vários “recados” para se “acalmar”. Como a população tinha medo de testemunhar, durante muito tempo ele recebeu todas as queixas. “Depois do caso Ivan Rocha, mudamos de tática: agora, se alguém quer denunciar, tem que fazer pessoalmente”, disse.

Para Zé da Baiana, Rocha foi imprudente, porque havia sido alertado do perigo que corria ao fazer suas denúncias. O programa “A voz de Ivan Rocha” era transmitido simultaneamente por três rádios, por isso tinha uma audiência garantida. Com a morte de Ivan, o porta-voz da rádio passou a ser Ramiro Guedes Luz.

Durante o primeiro ano de desaparecimento de Rocha, Luz manteve uma cortina musical permanente em seu programa, alertando para que o fato não caísse no esquecimento. Utilizava os versos da música “Achados e Perdidos” (do compositor Luiz Gonzaga Júnior, na voz forte e dramática da cantora Maria Medalha): “Quem me dirá onde está aquele moço fulano de tal, amigo, irmão, namorado que não voltou mais? Insiste o anúncio nas folhas dos nossos jornais: achados, perdidos, morridos, saudades demais...” Em seguida, cobrava das autoridades: “Hoje faz tantos dias do desaparecimento”. E colocava no ar um telefone para quem quisesse fornecer informações.

O desaparecimento de Rocha é considerado o primeiro caso recente de violência contra a liberdade de imprensa na Bahia, observa Agostinho Muniz, da Associação Baiana de Imprensa (ABI). Até 1991, havia poucos registros de jornalistas assassinados em cidades do interior do Estado. De 1991 a 1997, contando Ivan Rocha, foram 10 jornalistas mortos no exercício da profissão – depois de 12 anos do desaparecimento, Muniz acredita que se pode dizer que Rocha está morto.
Com informações do site:
http://www.impunidad.com/

2 comentários:

SRD disse...

A música realmente faz parte das lembranças de todos os moradores de Teixeira de Freitas, como também o mistério acerca do "desaparecimento" do Rocha.

Anônimo disse...

É preciso que o atual momento de desmascaramento de falsos políticos e autoridades que se prevalecem do poder continue. Os brasileiros não podem continuar reféns da corrupção na política, na segurança, e na justiça. A banda podre de todos os meandros da governabilidade precisa cair. O povo merece ser liberto dessas mazelas cancerígenas que destroem esse País e que fazem Dele um gigante vencido. Não deixemos o Moro só. Juntemo-nos a ele.

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